Análise da Lei 8.009/90, das exceções do art. 3º, da jurisprudência do STJ sobre hipoteca voluntária, e como defender o imóvel na execução.
A proteção do bem de família é um dos institutos mais invocados — e mais mal compreendidos — na defesa do executado. A Lei 8.009/90 cria uma presunção de impenhorabilidade, mas o art. 3º lista exceções que os credores costumam explorar. Conhecer os limites exatos da proteção é essencial para uma defesa eficaz.
O art. 1º protege o imóvel residencial próprio da entidade familiar, impenhorável por qualquer tipo de dívida, salvo as exceções expressas. A proteção independe de registro — o imóvel não precisa ser formalmente "declarado" bem de família para gozar da proteção legal. Basta que seja residência da família.
O STJ consolidou que a proteção alcança também: (a) o único imóvel do devedor, ainda que alugado, quando a renda do aluguel é a única fonte de subsistência da família (Súmula 486); (b) imóveis de valor elevado, sem limite de valor previsto na lei (diferente do bem de família convencional do CC, que tem regras próprias); (c) imóveis registrados em nome de pessoa solteira, separada ou viúva (Súmula 364).
O art. 3º da Lei 8.009/90 lista as hipóteses em que o bem de família pode ser penhorado. As principais são: (I) créditos de trabalhadores da própria residência; (II) financiamento do imóvel — o crédito do SFH ou de outra forma de financiamento habitacional que recaiu sobre o imóvel; (III) tributos incidentes sobre o imóvel (IPTU, ITR); (IV) execução de hipoteca sobre o imóvel, mas apenas se a hipoteca foi constituída antes da vigência da lei; (V) execução de hipoteca voluntária, quando o próprio devedor ofereceu o imóvel em garantia (posição controvertida — veja abaixo); (VI) dívida oriunda de pensão alimentícia.
Exceção polêmica: a hipoteca voluntária — quando o devedor oferece o próprio imóvel como garantia de empréstimo bancário. O STJ tem jurisprudência consolidada (Súmula 549) de que o bem de família oferecido em garantia hipotecária pode ser penhorado. A lógica: quem dá o próprio lar em garantia renuncia conscientemente à proteção. A defesa pode contestar essa posição em casos de vício do consentimento, garantia em contrato de adesão ou garantia prestada por terceiro.
Quando o executado possui mais de um imóvel, a proteção recai sobre o de menor valor (art. 5º, parágrafo único, da Lei 8.009/90). Contudo, o STJ tem mitigado essa regra em casos em que o imóvel de maior valor é efetivamente a residência da família — reconhecendo que a proteção tem caráter instrumental, não punitivo. A defesa deve demonstrar factualmente qual imóvel é a residência familiar, com provas documentais (contas de luz, IPTU, matrícula, fotos).
Imóvel desocupado temporariamente por reforma, viagem, ou ausência justificada mantém a proteção. O imóvel alugado também é protegido quando constitui a única fonte de renda para subsistência da família (Súmula 486/STJ). Já o imóvel mantido como investimento puro, sem relação com a moradia da família, não goza da proteção do bem de família legal.
Credores frequentemente argumentam que a aquisição do bem de família após o surgimento da dívida configura fraude à execução (art. 792, CPC). O STJ tem exigido, para reconhecimento da fraude, a prova do elemento subjetivo — intenção de prejudicar o credor — e a demonstração de que a dívida já estava inscrita ou o processo já existia ao tempo da alienação. A mera posterioridade da compra em relação ao nascimento da dívida não configura automaticamente fraude.
Quando o credor pede a penhora do imóvel e o executado pretende invocar a proteção do bem de família, a via adequada é a impugnação à penhora (art. 917, CPC) ou os embargos à execução, acompanhados de: certidão de matrícula do imóvel, comprovantes de residência (contas de água, luz, IPTU, registro escolar dos filhos), e, quando houver múltiplos imóveis, demonstração de que o imóvel indicado é efetivamente a residência familiar. Veja também a nossa página sobre bem de família e as perguntas frequentes sobre proteção do imóvel.
O escritório atende casos de defesa do executado em todo o Brasil. O contato pode ser feito pelo WhatsApp ou por e-mail.
Falar com o escritório →